sexta-feira, 27 de maio de 2011

Um Homem de Bem e um dos Heróis da Abolição

Ano de 1877.
A maior e mais comentada das nossas grandes secas comburia os sertões do Nordeste.
E Fraga-JOAQUIM AGOSTINHO FRAGA- nascido na serra de Portalegre, da então província do Rio Grande do Norte, em 28 de agosto de 1856, foi atingido em cheio pelo flagelo, o tremendo flagelo climatérico, de consequências desoladoras.
Não bastava-lhe, a ele, contando apenas com viúva e irmãos menores, vinha agora, a seca de 77, uma infelicidade a mais agravar-lhe a situação difícil e precoce de chefe da própria família do seu genitor, prematuramente falecido.
Filho era de Joaquim Agostinho Fraga de respeitável casal de honrados sertanejos: seu pai, Desidério Benigno Fraga, e sua mãe, Donata Alexandrina da Conceição.
Compelido pela terrível calamidade pública, teve ele de emigrar.
E como que por uma predestinação pública veio ter- e aí fixar residência- veio ter no antigo Acarape, atualmente cidade de Redenção, depois da gloriosa jornada abolicionista negra, solenemente triunfante em 1º de janeiro de 1833, primeira etapa da emancipação total em todo território do Brasil, em 13 de maio de 1888.
Foi, precisamente, o emigrado norte-rio-grandense de ontem com poucos outros companheiros, decididos e abnegados, um dos heróis da memorável campanha abolicionista no Ceará.
Acarape, naquela data, abriu caminho ao Ceará, e êste, a gloriosa ex-província, denominada pela vitória emancipacionista de Terra da Luz, logo no ano seguinte-em 25 de Março de 1884- libertou todos os seus escravos, quer dizer os existentes em todo o seu território. E assim, o nosso Ceará, por sua vez, vinha a abrir o caminho da Abolição do cativeiro negro em todo o Brasil, que se verificou quatro anos mais tarde, em mês e dias, ou seja-em 13 de Maio de 1888.
Temos, portanto, três datas fundamentais, verdadeiramente gloriosas e inconfundíveis, na história da emancipação da raça negra em nossa pátria: 1° de Janeiro de 1883, a data do Acarape; 25 de março de 1884,a data do Ceará-13 de maio de 1888, a data do Brasil.
O simples emigrado potiguar da sêca de 1877 pasando a viver e atuar em novo e estranho meio, o antigo Acarape, identificou-se logo, com seus destinos, com sua vida familiar e pública, hábitos e costumes simples.
Dadas as suas qualidades morais que de logo a todos se impunham- homem reservado e criterioso, homem da família e do trabalho, ativo e prudente, não tardou que viesse Fraga a ser aproveitado como empregado no prolongamento da Estrada de Ferro de Baturité,cujas obras se executavam àquele tempo, e empregado foi nesses trabalhos apenas até a conclusão do trecho Acarape à povoação de Canoa, depois Vila de Aracoiaba e mais tarde cidade de Aracoiaba.
Joaquim Agostinho Fraga serviu, posteriormente, e por algum tempo, em Ofícios de Justiça e empregado foi, também da Fazenda Pública do Estado.
Nutria sempre viva simpatia pelos negócios judiciários , e de modo especial, por assuntos de divisão e demarcação de terras, e voltou Fraga para esses negócios toda sua atividade: primeiro tirou um Carta de Solicitador perante o então Tribunal da Relação do Estado em dias do ano de 1892 em pleno alvorecer da Repáblica, recentemente proclamada (madrugada de 15 de novembro de 1889, consequência imediata da Abolição em todo Brasil).
Cinco anos decorridos, ou seja, em 1897, a Joaquim Agostinho Fraga conferiu o colendo Tribunal da Relação a Provisão para advogar em causas cíveis, comerciais e criminais.

Aula magna da Unilab

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Terra da Luz

Paula Nei, boêmio de talento, convence Patrocínio, seu amigo, a fazer uma viagem pelo Norte, onde, aliás já estivera, por ocasião da seca de 1879. (A voz de Castro Alves repercutia, ainda, entre os clarões de seus versos frementes. Contra o amor, triunfa a morte: mas renuncia diante do gênio...)
Em face do entusiasmo abolicionista do Ceará, tremiam os senhores de escravos. Para vendê-los, tentavam embarcá-los para outras províncias. Dirigidos por Francisco José do Nascimento, os marítimos de Fortaleza resolveram impedir que isso acontecesse. Os embarques eram feitos em jangadas; pois nas jangadas não mais entrariam os cativos! E, em janeiro de 1881, Francisco José do Nascimento (mestre Chico, chamado também Dragão do Mar) ordena que no porto do Ceará não mais se embarcassem escravos! A essa gloriosa província, berço de José de Alencar, chegaram Patrocínio e Paula Nei em 30 de novembro de 1882, sendo recebidos magnificamente.
Dragão do Mar e companheiros não faltaram às homenagens aos dois ilustres brasileiros.
Ao Ceará deu Patrocínio o nome de Terra da Luz, havendo sido agraciado com o título de Cidadão Cearense.
Foram apoteóticas a viagem e a excursão. Patrocínio fatigadíssimo, necessitava de repouso. E seguiu para a Europa.
Apesar de sua ausência, continuavam a campanha e o jornal, porquanto os amigos não fraquejavam.
Em 1º de janeiro de 1883 a cidade cearense de Acarape ( hoje Redenção) liberta a escravatura do município. E a data de 25 de março de 1884 é escolhida para que a província do Ceará extinga o cativeiro em seu território!
A convite dos abolicionistas da Côrte , o Dragão do Mar, em 1884, embarca para o Rio; e traz uma jangada, "Libertadora", para ser entregue no Museu Nacional,(...) O préstilo eletrizou os cariocas, foi aclamadíssimo pelas ruas. Cerca de vinte mil pessoas formavam o cortejo! Enviada, mais tarde ao Arsenal da Marinha da Corte, a jangada Libertadora desapareceu.
Perdeu-se, deste modo,uma relíquia da História do Brasil.
Lá em Paris, em março de 1884, recebe Patrocínio a notícia da libertação dos escravos do Ceará. Exultante, organiza um banquete, a que compareceu a fina flor do jornalismo da capital francesa, políticos, intelectuais! Por doença, não esteve presente Victor Hugo - mas atendendo ao apelo de José do Patrocínio, escreve umas linhas de exaltação à magnânima atitude cearense. Entre os convivas, o apóstolo negro fez distribuir seu opúsculo "L'affranchissement des esclaves de la províncie de Ceará, du Brésil"

Texto transcrito de "Patrocínio, o abolicionista". João Guimarães. Editora Melhoramentos - 1967